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A nostalgia do carnaval vacariano

No mês do carnaval, trazemos a história desta grandiosa festa, relembrando os tempos em que clubes e blocos abriam suas portas para as famílias de nossa cidade

01/02/2018 Especiais Carolina Padilha Alves e Vacaria Nativista Bruna Bueno e arquivo

O carnaval teve início no período colonial, sendo uma festa trazida de Portugal para nosso país. Conhecido como entrudo, este foi uma das primeiras manifestações carnavalescas que se tem notícia, porém, por ser praticada na colônia por escravos, a festa foi criminalizada em meados do século XIX, no Rio de Janeiro.

Enquanto estas manifestações populares eram proibidas, a elite carioca criava os bailes em clubes e teatros. Logo após, foram instituídas as sociedades, cuja primeira teve o nome de Congresso das Sumidades Carnavalescas e que acabou tomando as ruas da capital. Daí em diante, começaram a surgir as primeiras marchinhas de carnaval, levando o nome de Chiquinha Gonzaga para o mundo. No mesmo período, se instalavam na Bahia os primeiros afoxés, conhecidos por exaltarem a cultura africana, assim como o frevo em Recife e o maracatu em Olinda.

O carnaval é uma festa que sofreu modificações e inovações com o passar dos anos. Em 1920, as escolas de samba começaram a se formar e a organizar os desfiles, assim como os trios elétricos. Porém, somente na década de 60 o carnaval começou a ser visto como uma atividade comercial, com a liberação de verbas da prefeitura do Rio de Janeiro e a construção do Sambódromo.

Mesmo no Rio Grande do Sul, um estado distante e de cultura bem diferente dos demais, o carnaval ganhou o seu espaço, seguindo o modelo carioca de escola de samba. Em Porto Alegre, negros e brancos, que na época não podiam ocupar os mesmos espaços, acabaram se encontrando nos bairros boêmios da cidade, os quais abraçaram a festa e seguem realizando lindos desfiles.

O nosso carnaval

Na década de 20, o carnaval em Vacaria era animado, irreverente e muito concorrido, haja vista a grande quantidade de blocos que desfilavam ao redor da Praça da Matriz. Entre eles, destacavam-se “Os Bólidos”, onde a rainha era a filha do Cel. Virgílio Rodrigues, Srta. Diná Rodrigues, “Os Foliões”, onde quem reinava era a Srta. Zaira Moreira, filha do Cel. Flamino Moreira (1920) e “Os Piratas”, onde um dos integrantes era o Sr. Eury Boamar (em 1928).

Por muitos anos os blocos reinaram em Vacaria, com suas fantasias altamente elaboradas, e até luxuosas. Era um carnaval diferente dos dias atuais, pois era voltado para a família e para a diversão; tudo com muito respeito. O que predominava eram os desfiles de rua, onde participavam adultos, jovens e crianças. Nas décadas de 40, 50 e 60 seguia-se praticamente o mesmo padrão. Não era permitido aos foliões trocarem carícias mais ousadas, nem beijar, sob pena de serem chamados à direção das entidades. Após os desfiles, os foliões se dividiam entre os clubes do Comércio, Jockey, União Operária, Guarani e União da Glória.

Com o tempo, os blocos continuaram, mas o padrão das fantasias e os valores foram se modificando drasticamente. As fantasias já não eram mais tão glamorosas e já não se pulava mais o carnaval como antigamente, em família. Da década de 70 em diante, passaram a predominar os bailes nos clubes, após os desfiles de rua, onde os blocos foram trocando fantasias por camisetas personalizadas.

Os blocos dos clubes Guarani, Jockey e Comércio desfilavam primeiro e, por último, o tão esperado União da Glória, com o famoso João Trombone em frente à bateria. Com a apresentação de alegorias, a prefeitura premiava o melhor bloco, a melhor fantasia, melhor camiseta e melhor organização. Após o desfile, iam para a “concentração”, na frente dos clubes. A abertura era sempre aos sábados e, já dentro dos salões, bandas contratadas tocavam as marchinhas antigas, como “Mamãe eu Quero”, “Bandeira Branca”, “A Cabeleira do Zezé” e outras, e o samba, o qual tomou boa parte da festa. Para frequentar o carnaval nos clubes era necessário ser sócio ou ser apresentado por um, pagando um convite que não era tão barato. Rainha e rei momo eram escolhidos e convidados pela diretoria.

Nos carnavais infantis também tinha que ser sócio para entrar, ou apresentar o convite. As crianças fantasiadas desfilavam e havia premiação para as melhores fantasias. A banda era a mesma que tocava para os adultos e a rainha e o rei momo do clube abriam o baile, tanto o infantil quanto o adulto. Um dos reis momos a ficar mais tempo no “reinado” foi Daltro Lacava, já falecido.

Um dos marcos do carnaval em Vacaria foi quando a AABB trouxe as fantasias premiadas do carnaval do Rio de Janeiro, com a presença destacada de Clovis Bornay. Foi um espetáculo ímpar para o município. Outro fato curioso aconteceu em 1989, quando o Jockey e o Guarani fizeram o carnaval em conjunto, sendo a rainha Gerusa Reis, com a participação especial de Paulo Santana e da modelo Cristina Rangel.

E com o tempo, os carnavais em Vacaria chegaram ao fim. Blocos famosos pela irreverência, como Jaluka, Sassaricando, Indecisos, Vamos Nessa, Tropicália (Clube Guarani), Degraus 40, Husbu Raxo, UIA, Hallygally e os Enoormes, este último considerado um dos blocos que mais tempo saiu na avenida (Clube do Comércio), Água na Boca, Os Marinheiros, Fusuê e As Melindrosas (Jockey Clube), hoje existem na lembrança daqueles que vivenciaram dias que, aos poucos, ficarão somente nos registros escritos.

Atualmente, Vacaria conta apenas com as atividades do Clube União da Glória, que continua mantendo a tradição com sua bateria potente. O resto ficou na saudade e na memória de cada um que viveu os dias áureos da festa foliã vacariana.

A resistência de um clube

O clube União da Glória nasceu na sede em que conhecemos hoje, no ano de 1964, por um movimento de aproximadamente trinta famílias, que queriam um local maior para realizarem as suas festividades carnavalescas. Essas famílias, anteriormente, se reuniam em uma casa, a qual ficou muito pequena para abraçar todas as pessoas que lá frequentavam.

Localizado no bairro Glória, o local ficou popular por ser um clube de negros que, com maestria, faziam umas das melhores festas da cidade e recebiam todos os tipos de público, sem discriminação de raça ou classe social. Por esse motivo, o emblema da União da Glória é o mesmo desde os anos 60: duas mãos dadas, uma negra e uma branca.

“Segundo o que a velha guarda nos conta, a mão preta era de José dos Santos e a mão branca de Luís Basso, dois dos vários idealizadores do clube. Ela representa a integração dos povos na época”, comenta Emerson de Souza, atual presidente da União da Glória.

Emerson está no comando do clube desde outubro de 2017. Deixando a função de conselheiro fiscal, assumiu a posição de presidente desde que seu pai, Pedro Gilberto dos Santos, mais conhecido como Cojack, faleceu aos 68 anos. “Meu pai começou ainda muito novo na bateria da Glória e respirou o samba durante sua vida toda, sendo presidente do clube por doze anos ininterruptos. Agora é nossa responsabilidade continuar mantendo sua paixão viva”, explica o filho. Seu tio, José Maria dos Santos, foi o primeiro presidente do clube e teve sempre ao seu lado o mentor e idealizador do projeto João Maria Barbosa, o famoso João Trombone.

A União da Glória é a representante do carnaval de Vacaria até os dias atuais, pois somente ela ainda faz aparições e sai para a rua nesta época do ano. Para 2018, a escola optou por não fazer o desfile na praça Daltro Filho, mas somente tocar por alguns minutos em frente ao salão do clube para aqueles que quiserem assistir. “A cada ano fica mais difícil investirmos em fantasias, instrumentos e tudo o que envolve um desfile, pois o clube não recebe incentivo governamental e tem que caminhar com as próprias pernas”, destaca Emerson. Além disso, o número de pessoas envolvidas também diminuiu.

“Em 2011 tínhamos vinte pessoas na diretoria e na década de 90, cada ala contava com mais de cem integrantes. Hoje, em função dos trabalhos paralelos dos envolvidos e da crise financeira agravante, são poucos aqueles que ainda cooperam para que o carnaval e o clube continuem ativos”, completa.

O clube marcou a vida de muitas pessoas. Uma delas foi Renata Fernandes, rainha de bateria da União da Glória em 2002, rainha municipal em 2003 e passista do clube nos três anos posteriores, a qual veio de Jaguarão ainda muito pequena e desde sempre foi envolvida com a dança. Ao começar a participar dos carnavais em nossa cidade, Renata acabou levando sua família toda para também se juntar ao clube.

“Pra mim, o samba e o carnaval estão no sangue. A bateria começa a tocar e o som toma conta do corpo por completo, é libertador. Acho uma pena que as festas em nossa cidade não se perpetuaram”, comenta a mulata.

A União da Glória segue fazendo atividades durante o ano, como jantares, rodas de samba e a promoção de alguns shows. Com a paixão pelo carnaval ainda muito pulsante, o clube luta para não deixar apagar um belo legado, o qual orgulha a cidade toda, e apresentá-lo para as novas gerações.

Fontes: Ilca Bressan, Ilda Dian, Emerson de Souza, Renata Fernandes, Jane Zanella, livro Só Para Lembrar – Vacaria em Fotos, de Adhemar Pinotti.

Matéria feita em parceria com o grupo Vacaria Nativista: www.facebook.com/groups/VacariaNativista

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